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Rua Santa Catarina, Porto - Local do casamento com Ana Placido
publicado por jarcosta às 19:12

Camilo Castelo Branco - Junto à casa de Seide
publicado por jarcosta às 19:08

publicado por jarcosta às 16:27

27
Dez 10

quarto de dormir na casa de Seide - Camilo Castelo Branco

publicado por jarcosta às 00:49

11
Set 10

 

"Chuva.Bátegas de água que parecem cargas de cavalaria.Quem se arrisca

a pôr o pé fora da porta, atravessa a rua com a velocidade dos relâmpagos.

Do lado de dentro das casas, dos automóveis e dos eléctricos, a humanida-

de separa-se da natureza por vidraças ...

Heróico, sereno, plantado no jardim como um arbusto flexível mas persisten-

te, o busto de António Nobre. E a penosa visão do poeta imortalizado,

deu-me para pensar... na desgraça das estátuas. É que são realmente

desgraçadas !Pelo menos as daqueles que em vida as mereceram de verda-

de.Ainda hoje me arrepio, só de recordar a visita que fiz, num dia de remoto

Inverno, a um Camilo (Castelo Branco)monumentalizado no Porto. Debaixo

de um céu negro e pesado, a escorrer água e solidão, a sua máscara de

azebre era a imagem dum condenado a penas eternas. O angustiado de

Seide, enquanto vivo, tinha ao menos um filho doido, os livros e o génio

para aquecer o coração. Mas aquele Camilo de forma, esquecido e desabri-

gado, não tinha nada. Nem sequer o calor sd próprias veias!

 

"É claro que nunca passou pela cabeça de nenhuma patriótica edilidade, de

nenhum indefectível admirador, esta ideia: que talvez se esteja ali, no

próprio acto de inauguração do bronze, a arredondar a coroa de espinhos

com que em vida já se crucificou o Homem que se glorifica. É que... Mas que

trágico destino ficar numa praça a apanhar vento e chuva até à consumação

dos séculos! Era bom estar estar ali,era. Havia de ser, porém acompanhado

de uma saudade verdadeira. Duma lembrança quente, perene, constante,

que fosse como uma seiva a correr entre a vida e a morte. Mas qual o quê!

Entre nós, uma estátua significa apenas o chumbo que não se pôs no esqui-

fe. E por isso é que não conheço um sequer dos infelizes embalsamados em

metal que há por aí que se sinta bem na sua mortalha póstuma.

 

É claro que também há sujeitos de pedestal, alegres,felizes, com ar de quem

vigarizou a posteridade. Desses, porém, nem vale a pena falar: apenas

continuam na morte a triste comédia que representaram na vida ... "

 

 

                                                  Miguel Torga

                                                  Diário

                                                  Coimbra, 12 de Dezembro de 1942

publicado por jarcosta às 16:10

13
Set 09

 

'' ... E eu segui desiludido para Seide, ao encontro duma figuração autêntica, que fora um nume indiscutível na Samardã.

 

Camilo! Amamentado por dois seios de pedra, o Alvão e o Mezio, filho adoptivo dum

Marão escalvado, viera refugiar-se entre ramadas. Mas deixara estampada nos livros,

viva, indelével, a imagem saudosa dos torturados horizontes da infância. E as

Novelas do Minho, em vez dum pacífico enlevo à sombra dos arvoredos, pastoris

cenas de amor a prefaciar as do litógrafo Júlio Dinis, rangem como turbulentas

paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana

Plácido acabaram numa secura de fraga.

 

Encontrei o espectro do romancista ainda mais trágico do que o deixara da última

vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira,

agravara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu

a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do

filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d'A Reliquía,

acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e

agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! ..."

 

                                                                  In Portugal

                                                                  Miguel Torga

publicado por jarcosta às 19:57

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