14
Set 08

Camilo Castelo Branco

In 'O Vinho do Porto'

 

'' A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de Maio de 1861, é uma

das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os

detractores dos seus vinhos. A família Ferreirinha da Régua, composta de

dona Antónia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o milionário, digno de

o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes

da Azambuja, tinham ido, rio acima, à sua celebrada quinta do Vesúvio,

e convidaram o barão de Forrester a passar uma semana em sua

companhia. No dia 12, um alegre domingo, saíram todos do Vesúvio,

na intenção de jantarem na Régua. O Douro tinha engrossado com a

chuva de dois dias, e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao

ponto do Cachão, formidável sorvedouro em que a onda referve e redemoinha

vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e

mergulhou no declive da catadupa.

 

O barão sofrera a pancada do mastro quando se lançava à corrente,

nadando. Ainda fez algum esforço por apegar à margem; mas, fatigado

de bracejar no teso da corrente ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns 

segundos de agonia e desapareceu. Salvaram-se os outros, não todos,

com a protecção de uns barcos que aí estavam para recolher o despojo

de outro naufrágio de um transporte de cereais. Livrou-se Torres, o

futuro par do reino, agarrado a um barril de azeite, ate que o recolheram a

um dos barcos. Dona Antónia e o conde de Azambuja aferraram-se às

dragas do barco. A condessa foi salva por um marinheiro. Um juíz de

direito, Aragão Mascarenhas, agarrou-se à vara do barco rijamente,

qual o temos sempre visto filado à vara da Justiça, em naufrágio de

trapaças. Mas nem todos saíram com vida. Um criado de Torres foi

logo tragado pela cachoeira;e, abraçada com a vela, já quando se

lhe estendia um braço redentor, afogou-se uma criatura a quem os

noticiaristas não deram a mínima importância.

 

Pois foi uma perda insubstituível. Era a Gertrudes, um tesouro de jóias 

culinárias que a voragem engoliu....''

publicado por jarcosta às 00:39

 

'... O homem é um organismo servido por bons e maus instintos, alguns mais

ferozes que os das alimárias, e nenhum tão inteligente como os do castor,

das formigas e das abelhas; além disso, tem o dom da palavra, se lha ensinam,

e vai muito além do papagaio em glótica. Há uma só distinção que extrema o

homem de todos os outros animais.

- A alma - interrompi eu perspicazmente.

- Não. A mentira. O homem é o único animal que mente'

 

                                                        Camilo Castelo Branco

                                                         in  'O Vinho do Porto'

publicado por jarcosta às 00:25

13
Set 08

'... Diz algum tanto como exemplo desta lastimável anomalia a história de José

Teixeira da Silva do Telhado, o mais afamado salteador deste século.

 

Vulto de romance não o tem, porque neste país nem se completam ladrões para o

romance. Disse-me uma dama francesa de eminente espírito, que em Portugal era

a natureza, o céu e o ar que faziam os romances. Nem isso, minha senhora. Aqui

anda sempre o gume do prosaísmo a podar os rebentões da natureza, mal eles

infloram. Frutos de servir para a novela, levantada da comezinha chaneza dum conto

à lareira, nem mesmo os deixam amadurar na fama e nas façanhas de um salteador..'

 

                                                     Camilo Castelo Branco - Memórias do cárcere

publicado por jarcosta às 23:33

 

'... a Maria da Fonte que os progressistas chamam sua mãe e os

republicanos sua avó ...' 

 

                                                          Camilo Castelo Branco

publicado por jarcosta às 22:57

03
Set 08

''Sanjoaneiras com as saias enroscadas nos quadris, esbamboando-se, passavam

carregadas de sardinha, sacudindo a água que estilava dos cabazes. Alguns barqueiros,

na alameda fronteira, arrotavam aguardante e fumavam em cachimbos negros. Grupos

de operários da fábrica do Bicalho paravam a ver sair as carruagens da casa iluminada do Spenser, e diziam amargamente:- Estes é que a levam! Toda a noite na pândega a comer

e a dançar ... Agora vão dormir regalados ... Corja de vadios! Um velho magro, doente,

a tiritar de frio, porque empenhara a jaqueta para se embebedar, murmurava:-E dizem

que há Deus! para nós o que há é o Diabo! - afirmava outro filósofo da mesma têmpera,

que ao romper do dia saíra cambaleando duma taberna de Miragaia para a oficina.

Os deserdados a pedirem socialismo''

publicado por jarcosta às 01:52

Tu verás como é bom criar gente que nos fala, que nos colhe

as lágrimas do coração e as faz filtrar ao livro

publicado por jarcosta às 01:46

 

Eu não tenho imaginação,

tenho memória e memória

do que vi, do que senti, do

que experimentei.

 

Se descarno as pinturas,

se descrevo uma cena friamente,

é porque assim os olhos, que

a viram, a levaram à alma,

que a imprimiram em si

publicado por jarcosta às 01:41

 

 

Camilo Castelo Branco

In Novelas do Minho - A Viúva do Enforcado

 

Eu não podia escrever uma novela urdida com

factos de Guimarães sem me lembrar do mais

notável filho daquela terra - o Senhor D. Afonso

Henriques.

 

Procurei nas ruas e praças de Guimarães a estátua

do fundador da Monarquia. A cidade opulenta,

que tem ouro em barda, e abriu dois bancos, como os

pletóricos que se dão duas sangrias, não teve até

hoje um pedaço de granito que pusesse com feitio

de rei sobre um pedestral!

 

Se eu fosse rico, ou sequer pedreiro, quem fazia o

monumento de Afonso era eu. Assim, como último

dos escritores e o primeiro em patriotismo, apenas

posso aqui levantar um perpétuo padrão ao vencedor

de Ourique - ao real filho da mãe ingrata

 

 

publicado por jarcosta às 01:22

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