25
Out 08

 

' O título da Obra, Narcóticos, não quer dizer que ela seja um

extracto de papoilas ou essência de morfina. Se a obra é

essência de alguma coisa é da modéstia do Autor. Essência

de modéstia. Por ele saber que a sua obra é excitante e es-

candecente chamou-lhe Narcóticos. Admirável e tocante! É

o mesmo que chamar 'linimento de sabão com ópio'' à tintura

de iodo e ´´clister de linhaça'' a uma injecção de petróleo, e

aos beliscões ''beijos''! A modéstia acrisolada tem estas

aberrações metafóricas. Chamar-se um sujeito a si

''soporífero'', quando toda a gente, depois de o ler, bebe

láudano de Sdenham para dormir e anestesiar-se é um pre-

dicado raro que só frisa bem com as reputações constituídas,

invulneráveis, argamassadas. Mas, acima da modéstia própria,

o Autor põe a higiene alheia. Por consequência, com um pé

na modéstia e a mão entre o estômago e o fígado - no orgão da

consciência -, o Autor avisa os seus leitores incautos e amigos

que quem quiser dormir não abra estes livros. É melhor não os

abrir, se já sente abrir-se-lhe a boca no fim do Prefácio'

 

                               São Miguel de Ceide, Setembro de 1882

 

publicado por jarcosta às 21:54

20
Out 08

 

 

 

"... o nome de Camilo Castelo Branco representará para

sempre na história da literatura pátria o mais vivo, o

mais característico, o mais glorioso documento da acti-

vidade artística peculiar da nossa raça, porque ele é,

sem dúvida alguma, entre todos os escritores do nos-

so século, o mais genuínamente peninsular, o mais

tìpicamente português."

publicado por jarcosta às 00:44

19
Out 08

 

" Há muitos anos que eu ouço falar na associação de escritores,

denominada elogio mútuo.

Constava nas províncias do norte, que, nesta Lisboa, viveiro e alcáçar

dos potentados da inteligência, alguns escritores se haviam acama-

rado, e estatuído que uns aos outros se elogiariam de modo que, fora

do seu círculo, nenhum talento pudesse vingar, e nenhum talento pudes-

se vingar, e nenhuma imprensa desse notícia dele ao mundo. Entre os

confrades desta associação do panegírico, citava-se o teu nome,

Ernesto Biester, como um dos mais observantes e impecavéis sócios

do elogio mútuo.

 

Este pacto, censurado acrimoniosamente pelos escritores provincianos,

a mim não me pareceu bom nem mau. A gente, que eu via louvada e

encarecida nas tuas revistas literárias, merecia sê-lo; a outra, que tu

não encarecias nem barateavas, também eu a não conhecia. Pode

ser que tivesses muita razão e muita caridade em a deixar no

tinteiro. Eu também lá fiquei, e mais nove volumes que tinha publicado,

quando tu, há anos, deste a lume uma Viagem pela literatura contem-

porânea. Não me queixei, nem me doí. Dei uma satisfação à minha

vaidade, dizendo-lhe que nenhum escritor lisbonense achava praticá-

vel o absurdo de haver homem no Porto, ou do Porto, que escrevesse

livros legíveis, e demais a mais, louváveis. Acreditava aqui ninguém

que lá, daquelas serras do norte, pudesse vir coisa boa, a não ser vinho

e presuntos? O Porto havia mandado a Lisboa mais alguma coisa,

assim uma coisa insignificante como a liberdade; mas essa fora

uma dádiva atirada, por sobre toda a monarquia, com pulso de ferro;

e pulso de ferro é ideia muito material, quase a antítese de adelga-

çamento de intelecto.... "

 

 

                                                        Camilo Castelo Branco

                                                         In Esboços de Apreciações Literárias

publicado por jarcosta às 23:57

 

'' Primeiro que o homem chegue ao estado de déspota, tem de lutar com as repugâncias

da consciência, e sufocar-lhe as vozes, que proclamam os direitos do indivíduo. O despotis-

mo não tem direitos: - tem a força bruta; e mal daquele que não pode contrapor-lhe o

ferro com o ferro, o cacete com o cacete, e o sentimento brutal com a degradação do

raciocínio. Depois que o vislumbre de humanidade se apagou no coração, quebrados

estão os vínculos sociais, e rotos os laços de parentesco com os outros homens: - a

sensibilidade torna-se de ferro, o semblante de horror, e de afronta as vozes, o ar, as

ideias, e o nome.Ninguém há que não sinta a aspereza do despotismo, ao riçar-se por

esse cadáver despojado de moralidades, de impressoes dolorosas, e de consciência do bem: - aí não há mais que vitupérios, calúnias, e um fragamento do mundo irracional, que nos ensina a conhecer as galas da razão.

 

Pode ser déspota o mendigo, porque o é o salteador; pode sê-lo o pastor entre seus

companheiros, porque o é o irmão entre os seus irmãos; mas o mandatário do poder -

o agente da autoridade, quando o seja, é três vezes terrível, infesto, e contagioso na so-

ciedade. Posto que a razão de nobre se confrage, e torce, quando tem de luzir nas trevas,

que alimentam o homem ruim para os outros; posto que as vozes do ofendido morrem

à porta do ofensor, como vagido de criança por entre o alarme de uma turba que se dila-

cera, a minha queixa seja esse vagido, a minha razão, torça-se com a justiça, e não

passem estas palavras de um devaneio para mim, e de objecto de escárnio para a

pessoa de quem elas pendem.

 

Eu devia ter consultado os fastos do despotismo para me convencer, que, tarde ou cedo,

seria vítima do sr José Cabral, governador civil de Vila Real. Devia recordar-me que me

tinha chegado à bandeira dos livres, para temer o ferrete de escravo, e o maior peso

da opressão...

 

Todavia, não sei que pressentimento me traiu! Vi ofendidos vil e despoticamente os

meus cúmplices em opinião, e uma vez pungido pela mágoa deles, bradei ao opressor

Quosuqe tandem Catilina!... Este pensamento que se achava traduzido de uma única

correspondência minha, impressa no Nacional, bastante foi para que o dedo de S.

Exa me apontasse a sepultura, e os seus orgãos procurassem um cadáver para ela!

 

Da porta do governador civil no dia 17 do corrente, pelas 10 horas da manhã, saiu um

homem armado de cacete: espancou-me, deitou-me por terra,e, recolhido outra vez

à casa donde saíra, apareceu com uma espingarda e com um desgarre insultuoso,

à porta de S. Exa. Entregue às mãos do assassino, ainda agora tremo da posição

em que estive, quando sei evidentemente que José Cabral tinha dito ao caceteiro:

- mata-o!

E porquê? José cabral confessa que à sua ordem fui eu espancado, e dá a razão

deste delito, porque eu lhe não tirara o chapéu, tendo-o visto à sua janela.

 

Risum teneatis, amici?

 

Há casos que o requinte da desvergonha chega a tal ponto, que as considerações

sobre os seus actos se turvam e confundem na inteligência de quem as medita!!!

Pois S. Exa mandar espancar um homem, porque lhe não tira o chapéu! José Cabral

arroga-se o direito de senhorio de Veneza em terra que o conhece, e a um indivíduo,

que jamais lhe explora os escaninhos dos seus brazões, inda no caos, e as fases da

sua vida? porventura devo culto ao déspota, porque vejo um cacete, que pode es-

pancar-me? Como autoridade, que direito tem sobre o meu chapéu?! (Carta

Constitucional. Artigo 145 parag. 1º) ''Ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer

senão aquilo que a lei manda." E a lei não legisla sobre chapéus. Respeito as autori-

dades, e conheço que tenho cumprido este dever quando os negócios de estado me

pedem este ou aquele acto; mas devo por isso descobrir-me, quando, mau grado meu,

encaro o homem que detesto?!

 

E assim vingada foi a susceptibilidade de S. Exa; assim os encarregados pela Soberana

conciliam as opiniões, e deslembram as injúrias; assim novos crimes preparam no-

vas dissensões, se desta arte a liberdade se identifica com as disposições do proto-

colo.

 

Seria bom, porém, que o governador civil de Vila Real entrasse no conhecimento da

seguinte verdade: - Que as nossas injustiças quase sempre são julgadas pelos
homens. "
 
 
                                                                         Camilo Castelo Branco
                                                                          Vila Real, 23 de Agosto de 1847
                                                                          (In Delitos da Mocidade)
publicado por jarcosta às 13:46

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