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Abr 09

 

    Numa aldeia chamada Verdemilho, a uma légua de Aveiro, vivia em 1738 um

ancião, reputado justo porque à volta da sua casa, colmada e desguarnecida da

mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguesia, em dias determi-

nados, e recebiam esmolas que lhes bastavam à alimentação parca da semana.

Chamavam ao incógnito o 'velho da ermida' porque, ao lado da choupana dele,

estava uma capela. Os pobres, favorecidos deste homem, paravam ao cair da

tarde nas vizinhanças da ermida, para o verem sentado no teso de um outeirinho,

com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por

eles como quem enxuga lágrimas, diziam entre si:

 

   'Um homem que dá tanto aos pobres e chora!...'

Em 1739 saiu ele caminho de Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-no,

e disseram-lhe:

 

    - Não voltais mais aqui, nosso benfeitor?

 

    - Voltarei, filhos. À noite serei convosco.

 

    E caminhava a pé, abordoado num cajado que lhe dera um dos seus pobres.

 

    Chegado a Aveiro, entrou na igreja de S. Bernardino, acantou-se no mais escuro

dela e assistiu aos responsórios da segunda filha de Brás Luís de Abreu, a qual

estava sobre a essa.

 

    Saiu, parou à porta do pai da defunta, subiu, entrou à saleta em que ele recebia

os pêsames, apertou-o nos braços e disse-lhe:

 

     - Dá-me a vida das três filhas que te restam, e vem tu com elas.

 

     O padre derramou copiosas lágrimas, e não respondeu.

 

     Voltou Francisco Luís à sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluíram

das suas aldeias a dar-lhe as boas-vindas.

 

      Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma igreja onde se

rezavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:

 

      - Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com elas. Rasga-lhes as

mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por elas.

 

      O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.

 

      Voltou o caminheiro à sua cabana, e os pobres olharam-no com muita amargura,

porque a sombra dele era como de arejo vindo da região dos sepulcros.

 

      Uma tarde, não longe daquele dia em que se finara a quarta professa de

S. Bernardino, apareceu em Verdemilho o padre Brás Luís, atirou-se esbofado aos

braços do hebreu, e disse-lhe:

 

      - Dê-me as minhas filhas!

 

      - Pede-mas a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que ressuscitou

muitas ...

 

     - Não peço as mortas; quero as vivas.

 

     - Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe pedir a última..

 

     - Pois minhas filhas não estão aqui? - exclamou Brás Luís de Abreu.

 

     - Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?

 

     -  Meu Deus - bradou o padre.

 

    - Que é de suas filhas? - acudiu o hebreu

 

    - Fugiram! perderam-se!...

 

    - Salvar-se-iam? Encaminhá-las-ia qualquer providência que eu desconheço?

 

    - Roubaram-mas!

 

    E o padre, guardando silêncio por alguns minutos, continuou com intermitentes

de gemidos e ânsias ofegantes:

 

    Perdia-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto se não é prostituição?...

A justiça lançará mão delas... e deles...

 

    - Deles quem? - atalhou o israelita.

 

    - De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se

nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existência destes homens...

...

 

 

 

                                                                              in O Olho de Vidro

                                                                           Camilo Castelo Branco

publicado por jarcosta às 19:56

 

 

      O amor dá-se mal nas casas ameaçadas de pobreza. É como os ratos que pressentem

as ruínas dos pardieiros em que moram, e retiram-se. A comparação é por demais plebeia em matérias tão afidalgadas como são estas do coração: todavia, imolemos a polidez à verdade.

 

      O amor é de condição mui desprendida dumas baixezas que nós raramente chamamos

almoço, jantar, ceia, aconchego, comodidades, e guarda-roupa abundante. Assim que ele

dá tento de que o seu vizinho, chamado espírito, cogita distraído naquelas coisas vulgares,

começa a enfastiar-se, a franzir o sobrolho, a estorcer-se a ver por onde há-de fugir.

O amor quer o monopólio das faculdades da alma. Se o intelecto o desdenha para se exercitar em estudos graves, o caprichoso arrufa-se, e vinga-se dos sábios fugindo para

os corações dos tolos, que, tal qual vez, se senhoreiam dos espíritos das mulheres dos sábios, desastr de que o sapientíssimo Marco Aurélio se queixava numa carta à sua muito desonesta mulher Faustina. Cito um imperador para consolação da gente meã, ignorante dos iminentes camaradas de infortúnio, que a história lhe oferece.

 

      Quando este despeito se dá com as inteligências absorvidas pela paixão do saber,

que fará com os ânimos preocupados do prosaísmo da receita e despesa?

 

      Está este lameiral chamado terra infamado de misérias que fazem chorar. Mulheres

sem honra nem pão; criancinhas sem mãe nem cama; homens sem coração nem

remorsos; lajes salpicadas de sangue de desesperados que se matam; bancas de

anfiteatros cobertas de cabeças separadas dos troncos; hospitais que sorvem

podridão e revessam cadáveres. A gente vê isto, e passa. Não se inquirem causas.

A filosofia viu tudo, e disse 'corrupção congenial da humanidade'. A religião viu tudo, e

disse: 'Caridade e misericórdia'. Os poetas viram e disseram : 'Manon Lescaut, Cláudio

Gueux, Margarida Gauthier' ...

 

 

                                                                                          In 'A Sereia'

                                                                                          Camilo Castelo Branco

 

publicado por jarcosta às 17:12

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