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'' Primeiro que o homem chegue ao estado de déspota, tem de lutar com as repugâncias

da consciência, e sufocar-lhe as vozes, que proclamam os direitos do indivíduo. O despotis-

mo não tem direitos: - tem a força bruta; e mal daquele que não pode contrapor-lhe o

ferro com o ferro, o cacete com o cacete, e o sentimento brutal com a degradação do

raciocínio. Depois que o vislumbre de humanidade se apagou no coração, quebrados

estão os vínculos sociais, e rotos os laços de parentesco com os outros homens: - a

sensibilidade torna-se de ferro, o semblante de horror, e de afronta as vozes, o ar, as

ideias, e o nome.Ninguém há que não sinta a aspereza do despotismo, ao riçar-se por

esse cadáver despojado de moralidades, de impressoes dolorosas, e de consciência do bem: - aí não há mais que vitupérios, calúnias, e um fragamento do mundo irracional, que nos ensina a conhecer as galas da razão.

 

Pode ser déspota o mendigo, porque o é o salteador; pode sê-lo o pastor entre seus

companheiros, porque o é o irmão entre os seus irmãos; mas o mandatário do poder -

o agente da autoridade, quando o seja, é três vezes terrível, infesto, e contagioso na so-

ciedade. Posto que a razão de nobre se confrage, e torce, quando tem de luzir nas trevas,

que alimentam o homem ruim para os outros; posto que as vozes do ofendido morrem

à porta do ofensor, como vagido de criança por entre o alarme de uma turba que se dila-

cera, a minha queixa seja esse vagido, a minha razão, torça-se com a justiça, e não

passem estas palavras de um devaneio para mim, e de objecto de escárnio para a

pessoa de quem elas pendem.

 

Eu devia ter consultado os fastos do despotismo para me convencer, que, tarde ou cedo,

seria vítima do sr José Cabral, governador civil de Vila Real. Devia recordar-me que me

tinha chegado à bandeira dos livres, para temer o ferrete de escravo, e o maior peso

da opressão...

 

Todavia, não sei que pressentimento me traiu! Vi ofendidos vil e despoticamente os

meus cúmplices em opinião, e uma vez pungido pela mágoa deles, bradei ao opressor

Quosuqe tandem Catilina!... Este pensamento que se achava traduzido de uma única

correspondência minha, impressa no Nacional, bastante foi para que o dedo de S.

Exa me apontasse a sepultura, e os seus orgãos procurassem um cadáver para ela!

 

Da porta do governador civil no dia 17 do corrente, pelas 10 horas da manhã, saiu um

homem armado de cacete: espancou-me, deitou-me por terra,e, recolhido outra vez

à casa donde saíra, apareceu com uma espingarda e com um desgarre insultuoso,

à porta de S. Exa. Entregue às mãos do assassino, ainda agora tremo da posição

em que estive, quando sei evidentemente que José Cabral tinha dito ao caceteiro:

- mata-o!

E porquê? José cabral confessa que à sua ordem fui eu espancado, e dá a razão

deste delito, porque eu lhe não tirara o chapéu, tendo-o visto à sua janela.

 

Risum teneatis, amici?

 

Há casos que o requinte da desvergonha chega a tal ponto, que as considerações

sobre os seus actos se turvam e confundem na inteligência de quem as medita!!!

Pois S. Exa mandar espancar um homem, porque lhe não tira o chapéu! José Cabral

arroga-se o direito de senhorio de Veneza em terra que o conhece, e a um indivíduo,

que jamais lhe explora os escaninhos dos seus brazões, inda no caos, e as fases da

sua vida? porventura devo culto ao déspota, porque vejo um cacete, que pode es-

pancar-me? Como autoridade, que direito tem sobre o meu chapéu?! (Carta

Constitucional. Artigo 145 parag. 1º) ''Ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer

senão aquilo que a lei manda." E a lei não legisla sobre chapéus. Respeito as autori-

dades, e conheço que tenho cumprido este dever quando os negócios de estado me

pedem este ou aquele acto; mas devo por isso descobrir-me, quando, mau grado meu,

encaro o homem que detesto?!

 

E assim vingada foi a susceptibilidade de S. Exa; assim os encarregados pela Soberana

conciliam as opiniões, e deslembram as injúrias; assim novos crimes preparam no-

vas dissensões, se desta arte a liberdade se identifica com as disposições do proto-

colo.

 

Seria bom, porém, que o governador civil de Vila Real entrasse no conhecimento da

seguinte verdade: - Que as nossas injustiças quase sempre são julgadas pelos
homens. "
 
 
                                                                         Camilo Castelo Branco
                                                                          Vila Real, 23 de Agosto de 1847
                                                                          (In Delitos da Mocidade)
publicado por jarcosta às 13:46

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