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Abr 09

 

 

      O amor dá-se mal nas casas ameaçadas de pobreza. É como os ratos que pressentem

as ruínas dos pardieiros em que moram, e retiram-se. A comparação é por demais plebeia em matérias tão afidalgadas como são estas do coração: todavia, imolemos a polidez à verdade.

 

      O amor é de condição mui desprendida dumas baixezas que nós raramente chamamos

almoço, jantar, ceia, aconchego, comodidades, e guarda-roupa abundante. Assim que ele

dá tento de que o seu vizinho, chamado espírito, cogita distraído naquelas coisas vulgares,

começa a enfastiar-se, a franzir o sobrolho, a estorcer-se a ver por onde há-de fugir.

O amor quer o monopólio das faculdades da alma. Se o intelecto o desdenha para se exercitar em estudos graves, o caprichoso arrufa-se, e vinga-se dos sábios fugindo para

os corações dos tolos, que, tal qual vez, se senhoreiam dos espíritos das mulheres dos sábios, desastr de que o sapientíssimo Marco Aurélio se queixava numa carta à sua muito desonesta mulher Faustina. Cito um imperador para consolação da gente meã, ignorante dos iminentes camaradas de infortúnio, que a história lhe oferece.

 

      Quando este despeito se dá com as inteligências absorvidas pela paixão do saber,

que fará com os ânimos preocupados do prosaísmo da receita e despesa?

 

      Está este lameiral chamado terra infamado de misérias que fazem chorar. Mulheres

sem honra nem pão; criancinhas sem mãe nem cama; homens sem coração nem

remorsos; lajes salpicadas de sangue de desesperados que se matam; bancas de

anfiteatros cobertas de cabeças separadas dos troncos; hospitais que sorvem

podridão e revessam cadáveres. A gente vê isto, e passa. Não se inquirem causas.

A filosofia viu tudo, e disse 'corrupção congenial da humanidade'. A religião viu tudo, e

disse: 'Caridade e misericórdia'. Os poetas viram e disseram : 'Manon Lescaut, Cláudio

Gueux, Margarida Gauthier' ...

 

 

                                                                                          In 'A Sereia'

                                                                                          Camilo Castelo Branco

 

publicado por jarcosta às 17:12

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