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Set 09

 

'' ... E eu segui desiludido para Seide, ao encontro duma figuração autêntica, que fora um nume indiscutível na Samardã.

 

Camilo! Amamentado por dois seios de pedra, o Alvão e o Mezio, filho adoptivo dum

Marão escalvado, viera refugiar-se entre ramadas. Mas deixara estampada nos livros,

viva, indelével, a imagem saudosa dos torturados horizontes da infância. E as

Novelas do Minho, em vez dum pacífico enlevo à sombra dos arvoredos, pastoris

cenas de amor a prefaciar as do litógrafo Júlio Dinis, rangem como turbulentas

paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana

Plácido acabaram numa secura de fraga.

 

Encontrei o espectro do romancista ainda mais trágico do que o deixara da última

vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira,

agravara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu

a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do

filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d'A Reliquía,

acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e

agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! ..."

 

                                                                  In Portugal

                                                                  Miguel Torga

publicado por jarcosta às 19:57

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